12. Rachel faz um acordo ruim

Eu agarrei Will Solace do chalé de Apolo e falei para o resto dos irmãos dele
continuar procurando Michael Yew. Nós pegamos emprestada uma Yamaha FZI de
um motoqueiro adormecido e dirigimos para o Hotel Plaza em velocidades que
teriam causado um ataque cardíaco na minha mãe. Eu nunca tinha dirigido uma
moto antes, mas não era muito mais difícil do que montar um pégaso.
Ao longo do caminho, notei vários pedestais vazios que normalmente
guardavam estátuas. O plano vinte e três parecia estar dando certo. Eu não sabia se
isso era bom ou ruim.
Demorou apenas cinco minutos para que chegássemos ao Plaza – um hotel à
moda antiga feito de pedras brancas com um teto empenado azul, situado no canto
sudeste do Central Park.
Taticamente falando, o Plaza não era o melhor lugar para um quartel general.
Não era o prédio mais alto da cidade, ou o mais centralizado. Mas tinha um estilo
antiquado e atraíra muitos semideuses famosos ao longo dos anos, como os Beatles
e Alfred Hitchcock, então pensei que estávamos em boa companhia.
Eu disparei com a Yamaha por cima do meio-fio e desviei para uma parada
na frente da fonte do lado de fora do hotel.
Will e eu desembarcamos. A estátua no topo da fonte chamou, “Oh, ótimo.
Suponho que você quer que eu vigie sua moto também!”
Ela era um bronze tamanho família em pé no meio de uma tigela de granito.
Ela vestia apenas um lençol de bronze em volta de suas pernas, e ela estava
carregando uma cesta com frutas de metal. Eu nunca tinha prestado muita atenção
nela antes. Mas de novo, ela nunca tinha falado comigo antes.
“Você deveria ser Deméter?” eu perguntei.
Uma maçã de bronze voou por cima da minha cabeça.
“Todo mundo pensa que eu sou Deméter!” ela reclamou. “Eu sou Pompona, a
Deusa Romana da Fartura, mas porque você iria se importar? Ninguém se importa
com os deuses menores. Se vocês se importassem com os deuses menores, não
estariam perdendo essa guerra! Três vivas para Morfeus e Hécate, eu digo!”
“Vigie a moto,” falei para ela.
Pompona esbravejou em latim e arremessou mais frutas enquanto Will e eu
corremos em direção ao hotel.
Eu nunca tinha estado de verdade dentro do Plaza. O saguão era
impressionante, com candelabros de cristal e as pessoas ricas desmaiadas, mas eu
não prestei muita atenção. Um par de Caçadoras nos indicou a direção para os
elevadores, e nós fomos para as suítes da cobertura.
Semideuses tinham tomado completamente os últimos andares. Campistas e
Caçadoras estavam espatifados nos sofás, lavando-se nos banheiros, e ajudando-se
com lanches e refrigerantes dos frigobares. Um casal de lobos cinzentos estava
bebendo água das privadas. Estava aliviado ao ver que muitos dos meus amigos
tinham sobrevivido durante a noite, mas todo mundo parecia abatido.
“Percy!” Jake Mason bateu no meu ombro.
“Nós estamos recebendo relatórios—”
“Depois,” eu disse. “Onde está Annabeth?”
“No terraço. Ela está viva, cara, mas...”
Eu o empurrei e passei por ele.
Sob diferentes circunstâncias eu teria amado a vista do terraço. Via-se diretamente
abaixo na direção do Central Park. A manhã estava clara e brilhante – perfeita para
um piquenique ou uma caminhada, ou praticamente qualquer coisa menos combater
monstros.
Annabeth estava deitadanuma poltrona. Sua face estava pálida e ensopada de suor.
Ainda que ela estivesse coberta com lençóis, ela tremia. Silena Beauregard estava
enxugando sua testa com um pano frio.
Will e eu nos empurramos pelo meio de um grupo de filhos de Atena. Will
desamarrou as ataduras de Annabeth para examinar a lesão, e eu quis desmaiar. O
sangramento havia parado, mas o golpe parecia profundo. A pele em volta do corte
estava num tom de verde horrível.
“Annabeth...” eu me engasguei. Ela tinha levado aquela facada por mim. Como eu
deixei isso acontecer?
“Veneno na adaga,” ela balbuciou. “Meio estúpido da minha parte, huh?
Will Solace expirou de alívio. “Não é tão ruim, Annabeth. Alguns minutos a mais e
nós estaríamos com problemas, mas o veneno ainda não passou do ombro. Apenas
fique parada. Alguém me passe um pouco de néctar.”
Eu peguei um cantil. Will limpou a ferida com a bebida divina enquanto eu segurava
a mão de Annabeth.
“Ai,” ela disse. “ai, ai!” Ela agarrou meus dedos tão forte que eles ficaram roxos,
mas ela ficou parada, como Will pediu. Silena murmurou palavras de incentivo. Will
pôs um pouco de pasta prateada sobre a ferida e sussurrou palavras em grego antigo
– um hino para Apolo. Então ele aplicou bandagens frescas e levantou-se trêmulo.
A cura deve ter tirado muito de sua energia. Ele parecia quase tão pálido quanto
Annabeth.
“Isso deve bastar,” ele disse. “Mas nós vamos precisar de alguns suprimentos
mortais.”
Ele pegou uma parte dos artigos de papelaria do hotel, rabiscou algumas anotações,
e entregou para um dos filhos de Atena. “Há uma Duane Reade na Quinta Avenida.
Normalmente eu nunca roubaria—”
“Eu roubaria,” Travis se voluntariou.
Will olhou fixamente para ele. “Deixem dinheiro ou dracmas para pagar, o que quer
que vocês peguem, mas isso é uma emergência. Tenho a sensação que teremos
muito mais pessoas para tratar.”
Ninguém discordou. Não havia quase nenhum semideus que já não tivesse sido
machucado... exceto eu.
“Vamos lá, pessoal,” Travis Stoll disse. “Vamos dar algum espaço para Annabeth.
Temos uma farmácia para saquear... quero dizer, visitar.”
Os semideuses se misturaram de volta para dentro. Jake Mason agarrou meu ombro
quando estava saindo. “Nós vamos conversar depois, mas está sob controle. Estou
usando o escudo de Annabeth para manter um olho nas coisas. O inimigo recuou ao
nascer do sol; não tenho certeza porque. Nós temos um vigia em cada ponte e túnel.”
“Obrigado, cara,” eu disse.
Ele concordou com a cabeça. “Apenas use o seu tempo.”
Ele fechou as portas do terraço atrás de si, deixando Silena, Annabeth e eu sozinhos.
Silena pressionou um pano gelado na testa de Annabeth.
“Isso é tudo minha culpa.”
“Não,” Annabeth disse fracamente. “Silena, como isso é culpa sua?”
“Eu nunca servi para nada no acampamento,” ela murmurou. “Não como você ou
Percy. Se eu fosse uma lutadora melhor...”
A boca dela tremeu. Desde que Beckendorf morreu ela vinha piorando, e toda vez
que eu a via, isso me deixava todo zangado de novo. A expressão dela me
relembrava o vidro – como se ela fosse quebrar a qualquer minuto. Jurei a mim
mesmo que se eu encontrasse o espião que custou a vida do namorado dela, eu o
daria a Sra. O’Leary como brinquedo de mastigar.
“Você é uma campista grandiosa,” falei para Silena. “ Você é a melhor cavaleira de
pégasos que nós temos. E você se dá bem com as pessoas. Acredite em mim,
qualquer pessoa que consegue ser amiga da Clarisse tem talento.”
Ela me encarou com se eu tivesse lhe dado uma ideia. “É isso mesmo! Nós
precisamos do chalé de Ares. Eu posso falar com Clarisse. Eu sei que posso
convencê-la a nos ajudar. Deixe-me tentar.”
Eu troquei olhares com Annabeth. Ela concordou levemente. Eu não gostava da
ideia. Eu não achava que Silena tinha alguma chance de convencer Clarisse a lutar.
Por outro lado, Silena estava tão distraída nesse momento que apenas machucaria a
si mesma na batalha. Talvez mandá-la de volta para o acampamento daria a ela algo
para se concentrar.
“Tudo bem,” falei para ela. “Não consigo pensar em ninguém melhor para tentar.”
Silena jogou seus braços em volta de mim. Então ela recuou, desajeitada, fitando
Annabeth. “Hum, desculpe. Obrigada, Percy! Não vou decepcionar você!”
Assim que ela saiu, me ajoelhei perto de Annabeth e senti sua testa. Ela ainda estava
queimando.
“Você fica uma gracinha quando está preocupado,” ela murmurou. “Suas
sobrancelhas ficam dobradas juntinhas.”
“Você não vai morrer enquanto eu lhe devo um favor,” eu disse. “Porque você
tomou aquela facada?”
“Você teria feito o mesmo por mim.”
Era verdade. Acho que nós dois sabíamos disso. Ainda assim, eu sentia como se
alguém estivesse espetando meu coração com uma fria vara de metal. “Como você
sabia?”
“Sabia o quê?”
Olhei em volta para ter certeza que estávamos sozinhos. Então eu me curvei perto
dela e sussurrei: “Meu ponto de Aquiles. Se você não tivesse levado aquela facada,
eu teria morrido.
Ela ficou com um olhar distante. Sua respiração tinha cheiro de uvas, talvez por
causa do néctar. “Eu não sei, Percy. Eu apenas tive essa sensação de que você estava
em perigo. Onde... onde é o ponto?”
Eu não deveria contar a ninguém. Mas era Annabeth. Se eu não pudesse confiar
nela, não podia confiar em ninguém.
“Na parte de baixo da minha costa.”
Ela levantou a mão. “Onde? Aqui?”
Ela pôs a mão na minha coluna, e minha pele formigou. Eu movi os dedos dela até o
único ponto que me ligava à minha vida mortal. Mil voltes de eletricidade pareceram
arquear através do meu corpo.
“Você me salvou,” eu disse. “Obrigado.”
Ela removeu sua mão, mas eu continuei segurando-a.
“Então você me deve,” ela disse fracamente. “O que mais é novidade?”
Nós observamos o sol cobrir a cidade. O trânsito deveria estar pesado à essa hora,
mas não havia carros buzinando, nem multidões se alvoroçando pelas calçadas.
Bem longe, eu podia ouvir o eco de um alarme de carro pelas ruas. Uma pluma de
fumaça negra ondulou no céu em algum lugar sobre o Harlem. Eu imaginei quantos
fogões tinham sido deixados acesos quando o encanto de Morfeus atingiu; quantas
pessoas tinham pegado no sono no meio da preparação do jantar. Logo, logo haveria
mais incêndios. Todos em Nova York estavam em perigo – e todas aquelas vidas
dependiam de nós.
“Você me perguntou por que Hermes estava com raiva de mim,” Annabeth disse.
“Ei, você precisa descansar—”
“Não, eu quero contar para você. Isso está me incomodando há um bom tempo.” Ela
mexeu seu ombro e estremeceu. “Ano passado, Luke veio me ver em San
Francisco.”
“Em pessoa?” senti como se ela tivesse acabado de me acertar com uma marreta.
“Ele veio até sua casa?”
“Isso foi antes de nós entrarmos no Labirinto, antes...”
Ela vacilou, mas eu sabia o que ela queria dizer: antes que ele se transformasse em
Cronos. “Ele veio sob uma bandeira de trégua. Ele falou que queria apenas cinco
minutos para conversar. Ele parecia assustado, Percy. Ele me falou que Cronos ia
usá-lo para conquistar o mundo. Ele disse que queria fugir, como nos velhos tempos.
Ele queria que eu fosse com ele.”
“Masvocê não acreditou nele.”
“É claro que não. Pensei que era um truque. Ainda mais... bem, muitas coisas tinham
mudado desde os velhos tempos. Falei para Luke que não tinha jeito. Ele ficou
irado. Ele disse... ele disse que eu deveria lutar com ele ali mesmo, porque era a
última chance que eu teria.”
A testa dela começou a suar de novo. A história estava tomando muito de sua
energia.
“Está tudo bem,” eu disse. “Tente descansar um pouco.”
“Você não entende, Percy. Hermes estava certo. Talvez se eu tivesse ido com ele,
poderia ter mudado a cabeça dele. Ou – ou eu tinha uma faca. Luke estava
desarmado. Eu podia ter—”
“Matado ele?” eu disse. “Você sabe que isso não teria sido correto.”
Ela fechou os olhos bem apertados. “Luke disse que Cronos iria usá-lo como uma
pedra para pisar. Foram exatamente essas as palavras dele. Cronos iria usar Luke, e
se tornar ainda mais poderoso.”
“Ele fez isso,” eu disse. “Ele possuiu o corpo de Luke.”
“Mas e se o corpo de Luke for apenas uma transição? E se Cronos tem um plano
para ficar ainda mais poderoso? Eu poderia ter parado ele. A guerra é minha culpa.”
A história dela me fez sentir como se eu estivesse de volta ao Styx, dissolvendo
lentamente. Lembrei do último verão, quando o deus de duas cabeças, Janus, tinha
avisado Annabeth que ela teria que fazer uma escolha importante – e isso foi depois
que ela viu Luke. Pã também havia dito algo a ela: Você fará um papel grandioso,
ainda que talvez não seja o papel que você imaginou.
Eu queria perguntar a ela sobre a visão que Héstia tinha me mostrado, sobre os
primórdios dela com Thalia e Luke. Eu sabia que tinha algo a ver com a minha
profecia, mas não entendia o quê.
Antes que eu pudesse tomar coragem, a porta do terraço se abriu. Connor Stoll
passou para dentro.
“Percy.” Ele olhou rapidamente para Annabeth como se não quisesse falar nada de
mal na frente dela, mas eu podia falar que ele não estava trazendo notícias boas.
“Sra. O’Leary acabou de chegar com Grover. Acho que você deve falar com ele.”
Grover estava fazendo um lanche na sala de estar. Ele estava vestido para batalha
com uma camisa blindada feita de casca de árvore e nós retorcidos, com sua clava de
madeira e sua flauta de bambu pendurados em seu cinto.
O chalé de Deméter tinha rapidamente armado um bufê completo nas cozinhas do
hotel – tudo desde pizza até sorvete de abacaxi. Infelizmente, Grover estava
comendo a mobília. Ele já tinha mastigado o estofamento de uma cadeira
extravagante e agora estava roendo o descanso de braço.
“Cara,” eu disse, “nós estamos apenas pegando emprestado este lugar.”
“Blah-há-há!” Ele tinha a cara coberta de estofamento. “Desculpe, Percy. É que... é
a mobília de Luís XVI. Deliciosa. Além disso, eu sempre como mobília quando
estou—”
“Quando você está nervoso,” eu disse. “É, eu sei. Então, o que está acontecendo?”
Ele fez bateu seus cascos no chão. “Escutei sobre Annabeth. Ela está...?”
“Ela vai ficar bem. Está descansando.”
Grover respirou fundo. “Isso é bom. Eu mobilizei a maioria dos espíritos da natureza
na cidade – bem, aqueles que vão me escutar, de qualquer modo.” Ele esfregou a
testa. “Eu não tinha a mínima ideia que pinhões podiam doer tanto. De todo jeito,
nós vamos ajudar o máximo que conseguirmos.”
Ele me falou sobre os combates que tinha visto. A maioria deles estava cobrindo a
parte superior da cidade, onde nós não tínhamos semideuses suficientes. Cães do
inferno haviam aparecido em todos os tipos de lugares, fazendo viagens na sombra
para dentro das nossas linhas, e as dríades e sátiros estiveram lutando contra eles.
Um jovem dragão aparecera no Harlem, e uma dúzia de ninfas da floresta morreu
antes do monstro ser finalmente derrotado.
Enquanto Grover falava, Thalia entrou na sala com duas de suas tenentes. Ela
assentiu para mim de modo ameaçador, saiu para conferir Annabeth, e voltou para
dentro. Ela escutou enquanto Grover completou seu relatório – os detalhes ficando
cada vez piores.
“Nós perdemos vinte sátiros contra alguns gigantes no Forte Washington,” ele disse,
sua voz tremendo. “Quase metade dos meus parentes. Espíritos dos rios afogaram os
gigantes no final, mas...”
Thalia pôs o arco em seu ombro. “Percy, as forças de Cronos ainda estão se
reunindo em cada ponte e túnel. E Cronos não é o único Titã. Uma de minhas
Caçadoras avistou um homem enorme numa armadura dourada agrupando um
exército na costa de Nova Jersey. Eu não tenho certeza de quem ele é, mas ele
irradia poder que nem um Titã ou um deus.”
Eu me lembrei do Titã dourado dos meus sonhos – aquele no Monte Otris que tinha
irrompido em chamas.
“Ótimo,” eu disse. “Alguma notícia boa?”
Thalia deu de ombros. “Nós lacramos os túneis de metrô para dentro de Manhattan.
Minhas melhores preparadoras de armadilhas tomaram conta disso. Além disso,
parece que o inimigo está esperando anoitecer para atacar. Acho que Luke” – ela se
segurou – “quero dizer, Cronos precisa de tempo para se regenerar após cada
batalha. Ele ainda não está conformado com sua forma atual. Está tomando muito de
seu poder para deixar o tempo mais devagar em volta da cidade.
Grover assentiu. “A maioria das forças dele são mais poderosas à noite, também.
Mas eles estarão de volta após o pôr-do-sol.” Tentei pensar claramente. “Ok.
Alguma palavra dos deuses?”
Thalia balançou a cabeça. “Eu sei que Lady Ártemis estaria aqui se pudesse. Atena
também. Mas Zeus ordenou que elas ficassem ao seu lado. A última vez que escutei,
Tifão estava destruindo o vale do Rio Ohio. Ele deve alcançar os Apalaches por
volta de meio-dia.”
“Então na melhor das hipóteses,” eu disse, “nós temos mais dois dias antes que ele
chegue.”
Jake Mason pigarreou. Ele permaneceu lá tão silenciosamente que quase esqueci que
ele estava na sala.
“Percy, mais uma coisa,” ele disse. “O jeito que Cronos apareceu na Ponte
Williamsburg, como se soubesse que você estava indo para lá. E ele transferiu suas
forças para os nossos pontos mais fracos. Logo que partimos, ele mudou a tática. Ele
quase nem tocou o Túnel Lincoln, onde as Caçadoras estavam fortes. Ele buscou o
nosso lugar mais fraco, como se soubesse.”
“Como se ele tivesse informação de dentro,” eu disse. “O espião.”
“Que espião?” exigiu Thalia.
Eu falei para ela do amuleto dourado que Cronos tinha me mostrado, o dispositivo
de comunicação.
“Isso é ruim,” ela disse. “Muito ruim.”
“Poderia ser qualquer um,” Jake disse. “Todos nós estávamos lá quando Percy deu
as ordens.”
“Mas o que nós podemos fazer?” perguntou Grover. “Revistar todos os semideuses
até encontrar um amuleto em forma de foice?”
Todos eles olharam para mim, esperando uma decisão. Eu não podia demonstrar o
quanto me sentia em pânico, ainda que as coisas parecessem sem esperança.
“Nós continuamos lutando,” eu disse. “Não podemos ficar obcecados com esse
espião. Se nós suspeitarmos uns dos outros, vamos apenas nos separar mais. Vocês
todos foram incríveis noite passada. Eu não poderia pedir um exército mais corajoso.
Vamos fazer um rodízio de vigias. Descansem enquanto podem. Nós temos uma
longa noite à nossa frente.”
Os semideuses balbuciaram em concordância. Eles seguiram seus caminhos
separados para dormir ou comer ou consertar suas armas.
“Percy, você também,” Thalia disse. “Nós vamos manter um olho nas coisas. Vá
deitar. Nós precisamos de você em boa forma para hoje à noite.”
Eu não argumentei muito. Achei o próximo quarto e desabei na cama com dossel.
Pensei que estava muito ligado para dormir, mas meus olhos fecharam quase
imediatamente.
No meu sonho, vi Nico di Angelo sozinho nos jardins de Hades. Ele tinha acabado
de cavar um buraco num dos canteiros de Perséfone, o que eu achei que não faria a
rainha muito feliz.
Ele despejou um cálice de vinho dentro do buraco e começou a entoar um cântico.
“Deixe os mortos sentirem o gosto de novo. Deixe-os ascender e pegar esta
oferenda. Maria di Angelo, mostre-se.
Fumaça branca se acumulou. Uma figura humana se formou, mas não era a mãe de
Nico. Era uma garota de cabelos pretos, pele cor de azeitona, e roupas prateadas de
uma Caçadora.
“Bianca,” disse Nico. “Mas—”
Não convoque nossa mãe, Nico, ela alertou. Ela é o único espírito que você está
proibido de ver.
“Por que?” ele exigiu. “O que nosso pai está escondendo?”
Dor, Bianca disse. Ódio. Uma maldição que se estende até a Grande Profecia.
“O que você quer dizer?” disse Nico. “Eu preciso saber!”
O conhecimento irá apenas machucar você. Lembre-se do que eu disse: guardar
rancor é uma falha mortal para as crianças de Hades.
“Eu sei disso,” disse Nico. “Mas eu não sou o mesmo que costumava ser, Bianca.
Pare de tentar me proteger!”
Irmão, você não entende—
Nico passou a mão através da névoa, e a imagem de Bianca se dissipou.
“Maria di Angelo,” ele disse novamente. “Fale comigo!”
Uma imagem diferente se formou. Era uma cena ao invés de um único fantasma. Na
névoa, eu vi Bianca e Nico criancinhas, brincando no saguão de um hotel elegante,
perseguindo um ao outro em volta de colunas de mármore.
Uma mulher estava sentada em um sofá próximo. Ela usava um vestido negro, luvas
e um chapéu preto com véu que nem uma estrela de cinema dos anos 40. Ela tinha o
sorriso de Bianca e os olhos de Nico.
Em uma cadeira ao lado dela sentava um homem largo e oleoso em um terno risca
de giz. Chocado, percebi que era Hades. Ele estava se inclinando em direção à
mulher, usando as mãos enquanto falava, como se estivesse agitado.
“Por favor, minha querida,” ele disse. “Você deve vir para o Submundo. Não me
importo com o que Perséfone pensa! Posso mantê-la a salvo lá.”
“Não meu amor.” Ela falava com um sotaque italiano. “Criar nossas crianças na
terra dos mortos? Não vou fazer isso.”
“Maria, me escute. A guerra na Europa virou os outros deuses contra mim. Uma
profecia foi feita. Minhas crianças não estão mais seguras. Poseidon e Zeus me
forçaram a um acordo. Nenhum de nós nunca mais deve ter filhos semideuses.”
“Mas você já tem Nico e Bianca. Certamente—”
“Não! A profecia avisa de uma criança que vai fazer dezesseis anos. Zeus decretou
que os filhos que tenho atualmente devem ser levados ao Acampamento Meio-
Sangue para treinamento apropriado, mas eu sei o que ele quer dizer. No máximo
eles serão vigiados, aprisionados e tornados contra o seu pai. Ainda mais provável,
ele não vai correr o risco. Não vai permitir que minhas crianças semideusas façam
dezesseis anos. Ele vai achar um jeito de destruí-las, e eu não vou arriscar isso!’
“Certamente,” disse Maria. “Nós vamos ficar juntos. Zeus é un imbecile.”
Eu não pude deixar de admirar a coragem dela, mas Hades olhou nervosamente para
o teto. “Maria, por favor. Eu falei para você, Zeus me deu o prazo máximo de
semana passada para entregar as crianças. A ira dele vai ser horrível, e eu não posso
escondê-la para sempre. Enquanto você estiver com as crianças, também vai estar
em perigo.”
Maria sorriu, e de novo era esquisito o tanto que ela parecia com sua filha. “Você é
um deus, meu amor. Você vai nos proteger. Mas eu não levarei Nico e Bianca para o
Submundo.”
Hades torceu as mãos. “Então, há uma outra opção. Conheço um lugar no deserto
onde o tempo não passa. Eu poderia mandar as crianças para lá, apenas por um
tempo, para a segurança delas, e nós poderíamos ficar juntos. Eu vou construir um
palácio dourado para você à margens do Styx.”
Maria di Angelo riu gentilmente. “Você é um homem bondoso, meu amor. Um
homem generoso. Os outros deuses deveriam vê-lo assim como eu, e ele não o
temeriam tanto. Mas Nico e Bianca precisam da mãe deles. Além disso, são apenas
crianças. Os deuses não os machucariam de verdade.”
“Você não conhece minha família,” Hades disse sombriamente. “Por favor, Maria,
eu não posso te perder.”
Ela tocou os lábios dele com os dedos. “Você não vai me perder. Espere por mim
enquanto eu pego minha bolsa. Vigie as crianças.”
Ela beijou o lorde dos mortos e se levantou do sofá. Hades observou ela subir as
escadas como se cada passo dela para longe o causasse dor.
Um momento depois, ele ficou tenso. As crianças pararam de brincar como se
tivessem sentido algo também.
“Não!” disse Hades. Mas mesmo os seus poderes divinos foram muito lentos. Ele
apenas teve tempo de erguer um muro de energia negra em volta das crianças antes
do hotel explodir.
A força foi tão violenta, que a imagem de névoa inteira dissolveu. Quando focou de
novo, vi Hades ajoelhado nas ruínaW, segurando a forma quebrada de Maria di
Angelo. Fogueiras ainda ardiam em volta dele. Relâmpagos brilhavam pelo céu, e
trovões soavam.
Pequeno Nico e Bianca olhavam fixamente para sua mãe, sem compreender. A Fúria
Aleco apareceu entre eles, sibilando e batendo suas asas encouraçadas. As crianças
não pareciam notá-la.
“Zeus!” Hades balançou seu punho para o céu. “Vou destruí-lo por isso! Vou trazer
ela de volta!”
“Meu lorde, você não pode,” Alecto avisou. “Você dentre todos os imortais deve
respeitar as leis da morte.”
Hades ardeu de raiva. Pensei que ele ia mostrar sua forma verdadeira e vaporizar
seus próprios filhos, mas no último momento ele pareceu retomar o controle.
“Leve-os,” ele disse para Alecto, segurando um soluço. “Limpe as memórias deles
no rio Lete e leve-os para o Hotel Lótus. Zeus não irá feri-los naquele lugar.”
“Como queira, meu lorde.” Alecto disse. “E o corpo da mulher?”
“Leve ela também,” ele disse amargamente. “Dê a ela os rituais antigos.”
Alecto, as crianças e o corpo de Maria se dissolveram em sombras, deixando Hades
sozinho nas ruínas.
“Eu avisei você,” disse uma nova voz.
Hades se virou. Uma garota num vestido multicolorido estava em pé próximo aos
restos fumegantes do sofá. Ela tinha um curto cabelo preto e olhos tristes. Ela não
tinha mais que doze anos. Eu não a conhecia, mas ela parecia estranhamente
familiar.
“Você ousa vir aqui?” rosnou Hades. “Eu deveria reduzir você a pó!”
“Você não pode,” disse a garota. “O poder de Delfos me protege.”
Com um calafrio, percebi que estava olhando para o Oráculo de Delfos, no tempo
em que ela estava viva e jovem. De algum jeito, vendo ela assim era ainda mais
assustador do que vê-la como uma múmia.
“Você matou a mulher que eu amava!” esbravejou Hades. “Sua profecia nos levou a
isso!”
Ele foi para cima da garota, mas ela não recuou.
“Zeus ordenou a explosão para matar as crianças,” ela disse, “porque você desafiou
a vontade dele. Eu não tenho nada a ver com isso. E eu avisei você para escondê-los
mais cedo.”
“Eu não podia! Maria não deixaria! Além disso, eles eram inocentes.”
“Todavia, eles são seus filhos, o que os faz perigosos. Mesmo que você os guarde no
Hotel Lótus, você apenas adia o problema. Nico e Bianca nunca vão poder retornar
ao mundo para que não completem dezesseis anos.”
“Por causa da sua tão famosa Grande Profecia. E você me forçou a fazer um
juramento para não ter outros filhos. Você me deixou sem nada!”
“Eu prevejo o futuro,” a garota disse. “Eu não posso mudá-lo.”
Fogo negro acendeu os olhos do deus, e eu sabia que estava vindo algo ruim. Eu
quis gritar para a garota se esconder ou correr.
“Então, Oráculo, escute as palavras de Hades,” ele rugiu. “Talvez você não possa
trazer Maria de volta. Tampouco eu posso trazer uma morte precoce a você. Mas sua
alma continua mortal, e eu posso amaldiçoá-la.”
Os olhos da garota se arregalaram. “Você não iria—”
“Eu juro,” disse Hades, “enquanto minhas crianças permanecerem exiladas,
enquanto eu me comportar sob a maldição da sua Grande Profecia, o Oráculo de
Delfos nunca terá outro hospedeiro mortal. Você nunca descansará em paz. Nenhum
outro vai tomar seu lugar. Seu corpo irá murchar e morrer, e ainda assim o espírito
do Oráculo estará trancado dentro de você. Você irá pronunciar suas profecias
amargas até que você se desintegre toda. O Oráculo irá morrer com você!”
A garota gritou, a imagem enevoada explodiu em pedaços. Nico caiu de joelhos no
jardim de Perséfone, sua face branca de choque. Parado à sua frente estava o
verdadeiro Hades, elevando-se em suas vestes negras e franzindo as sobrancelhas
para seu filho.
“E apenas o que,” ele perguntou para Nico, “você pensa que está fazendo?”
Uma explosão negra preencheu meus sonhos. Então o cenário mudou.
Rachel Elizabeth Dare estava andando ao longo de uma praia de areia branca. Ela
vestia um maiô com uma camisa amarrada à sua cintura. Seus ombros e rosto
estavam queimados de sol.
Ela se ajoelhou e começou a escrever com o dedo na areia molhada. Achei que
minha dislexia estava agindo até que percebi que ela estava escrevendo em grego
antigo.
Aquilo era impossível. O sonho tinha que ser falso. Rachel terminou algumas
palavras e murmurou, “O quê no mundo?”
Eu consigo ler grego, mas eu apenas reconheci uma palavra antes que o mar levasse
embora: Περσεύς. Meu nome: Perseus.
Rachel se levantou abruptamente e recuou para longe da onda.
“Oh, deuses,” ela disse. “É isso que significa.”
Ela se virou e correu, chutando areia para trás enquanto se apressava para voltar para
a casa de campo de sua família.
Ela saltou os degraus do pórtico, respirando com dificuldade. O pai dela olhou por
cima de seu Jornal da Wall Street.
“Papai.” Rachel marchou até ele. “Nós temos que voltar.”
A boca de seu pai se contorceu, como se ele estivesse tentando se lembrar de como
sorrir. “Voltar? Nós acabamos de chegar.”
“Há problemas em Nova York. Percy está em perigo.”
“Ele ligou para você?”
“Não... não exatamente. Mas eu sei. É um pressentimento.”
Sr. Dare dobrou seu jornal. “Sua mãe e eu estivemos planejando essas férias por um
longo tempo.”
“Não estiveram não! Vocês dois odeiam a praia! Vocês apenas são muito teimosos
para admitir.”
“Agora, Rachel—”
“Estou lhe dizendo que há algo de errado em Nova York! A cidade inteira... não sei
o quê exatamente, mas está sob ataque.”
O pai dela suspirou. “Acho que teríamos escutado algo desse tipo nos jornais.”
“Não,” Rachel insistiu. “Não esse tipo de ataque. Você já recebeu alguma ligação
desde que chegamos aqui?”
O pai dela franziu a testa. “Não... mas é final de semana, no meio do verão.”
“Você sempre recebe ligações,” disse Rachel. “Você precisa admitir que isso é
estranho.”
O pai dela hesitou. “Nós não podemos apenas ir embora. Nós gastamos muito
dinheiro.”
“Olhe,” disse Rachel. “Papai... Percy precisa de mim. Preciso entregar uma
mensagem. É vida ou morte.”
“Que mensagem? Do que você está falando?”
“Não posso lhe dizer.”
“Então você não pode ir.”
Rachel fechou os olhos como se estivesse tomando coragem. “Pai... deixe-me ir, e
eu faço um acordo com você.”
Sr. Dare sentou-se mais à frente. Acordos eram uma coisa que ele entendia.
“Estou escutando.”
“Academia Clarion para Moças. Eu – eu vou para lá no outono. Não vou nem
reclamar. Mas você precisa me levar de volta para Nova York agora.”
Ele ficou em silêncio por um longo tempo. Então ele abriu seu telefone e fez uma
ligação.
“Douglas? Prepare o avião. Nós estamos partindo para Nova York. Sim...
imediatamente.”
Rachel jogou seus braços em volta dele, e seu pai pareceu surpreso, como se ela
nunca o tivesse abraçado antes.
“Vou lhe retribuir, papai!”
Ele sorriu, mas sua expressão era fria. Ele a estudou como se não estivesse olhando
sua filha – apenas a jovem moça que ele queria que ela fosse, uma vez que a
Academia Clarion tivesse transformado ela.
“Sim, Rachel,” ele concordou. “Certamente você vai.”
A cena desvaneceu. Eu murmurei no meu sonho: “Rachel, não!”
Eu ainda estava me debatendo e virando quando Thalia me acordou com sacudidas.
“Percy,” disse ela. “Venha logo. Já é fim de tarde. Nós temos visitas.”
Eu sentei, desorientado. A cama era tão confortável, e eu odiava dormir no meio do
dia.
“Visitas?” eu disse.
Thalia assentiu sombriamente. “Um Titã quer ver você, sob uma bandeira de trégua.
Ele tem uma mensagem de Cronos.”

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